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O Caderno mágico

12 de out.
4 min de leitura

Depois de horas trabalhando nesse caderno, finalmente ele ficou pronto. Alguns defeitos aqui e acolá, só que no geral estou feliz com o resultado.


Ok! O sol já está apontando no horizonte, passei a noite inteira focada na minha criação. Antes que dormir quero escrever pelo menos uma linha nele: "Que eu acorde com o som da chuva e seja um dia nublado, para eu poder aproveitar meu dia de folga com um bom livro e chá quente."


Ouvi um barulho pela janela, olhei e estava chovendo. O céu cinza, um friozinho agradável. Uou, meu desejo se realizou! Vou ter minha folga perfeita. Que ótima coincidência. Me aconchego mais embaixo das cobertas e volto a dormir, só mais cinco minutinhos.


No outro dia, ao chegar no trabalho, jogo minha bolsa em cima do balcão e vou preparar uma xícara de café para me acordar. Enquanto tomo meu café e observo as pessoas passando em frente a vitrine, me lembro do caderno. Seria ótimo se não fosse coincidência e eu realmente pudesse realizar tudo aquilo que escrevo nele. Eu sei que parece loucura pensar que talvez funcione, mas adicionar um pouco de magia na minha rotina chata não faz mal, nem se for só na imaginação.


Vasculho minha bolsa e puxo o caderno para a luz. A capa vinho com estampas florais foi um toque maravilhoso que adicionei. Bom, chegou a hora de tentar mais uma vez:


"Que hoje o Aurélio venha à loja".


Eu sei o que você está pensando. Não gosto dele, juro... É que ele não aparece faz um bom tempo, e... fico preocupada com os meus clientes. Enfim, o caderno é só um simples caderno e toda essa baboseira não passa de algo infantil. Melhor voltar ao trabalho.


/Tlim-tlim!/


— Bem-vindo a Papéis e Histórias — Falo automaticamente, como robô, arrumando alguns livros em uma estante, sem prestar muita atenção ao meu redor.


Aurélio passa pela porta e acena com a cabeça para mim como de costume. Ele nunca para para conversar, já estou acostumada com o jeito tímido dele. Vai direto para a prateleira de canetas.


É só mais uma coincidência. Respira e não surta. Fico repetindo esse mantra a todo momento. Minha vontade é de gritar e sair correndo. Mas a única coisa que faço é fingir que tudo está bem. Tudo está bem de verdade, certo?


Depois que ele saiu da loja com sua canetas novas, tiro o caderno da bolsa novamente com cautela, com medo dele começar se mexer sozinho. Bom, só pode ter sido mais uma coincidência, magia não existe, nada disso é real. Para eu me acalmar e acabar com essa neura, vou escrever algo impossível de acontecer:


"Que o Aurélio volte e me convide para almoçar"


Não, esquece. Eu nem quero isso de verdade. Pirei, vou escolher outro. Faço vários risco em cima da frase para garantir que nada disso aconteça. Guardo o caderno em uma gaveta bem longe de mim e volto a trabalhar. Isso, trabalhar vai ser a melhor distração por agora.


Depois de várias mercadorias colocadas no lugar, varrer um pouco o chão e atender mais alguns clientes. Olho para o relógio e vejo que já passou muito da hora do almoço. Senti um alívio, porém confesso que uma pontada de decepção. Afinal, quem não quer um caderno que realiza desejos? É tipo ter sua própria lâmpada mágica com um gênio particular. Resolvo libertar o caderno da sua prisão. Que loucura achar que isso realmente funciona.


/Tlim-tlim!/


— Bem-vin...


Vejo o Aurélio entrar e vir direto na minha direção.


— Olá... — Faz uma pausa longa, desvia o olhar enquanto coça a cabeça, sem graça — Eu sei que vai parecer loucura, já são 3 da tarde... — Mais uma pausa desconfortável — É... bem... já almoçou?


Meu corpo não sai do lugar e não consigo emitir nenhum som. Não consigo raciocinar e muito menos responder a ele. Simplesmente o encaro sem acreditar no que estou vendo. Pelo meu silêncio ele deve ter achado que eu odiei o convite e que ele passou do limite.


— Olha, desculpa pela pergunta. Por atrapalhar seu trabalho. É melhor eu ir embora.


Ainda sem conseguir me mover, acompanho com os os olhos Aurélio sair da loja apressado, quase derrubando uns cadernos expostos perto da porta. Quando vejo a porta se fechar e ele correr para longe da loja, relaxo e puxo todo o ar que está ao meu redor. Talvez nem respirar eu estava conseguindo.


No desespero, pego o caderno que deixei em cima do balcão e jogo ele dentro de uma das caixas de lixo para incinerar. Isso, vai ser a melhor opção, botar fogo nele. Coloco mais alguns papéis por cima e fecho a tampa com força. Vamos acabar com isso.


Apesar de eu achar incrível um caderno que realiza desejos. Sei que não vou conseguir lidar com ele. O melhor é deixar ele lá, amanhã tudo acaba e ele é incinerado.





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